Por André Dellamanha Todos sabemos que o Metal não anda lá muito bem de saúde nos Estados Unidos e, nas palavras de Charlie Benante, do Anthrax, “o Metal morreu na América”. As bandas do hemisfério norte das Américas que vêm lançando bons trabalhos, como Iced Earth, Exodus e o próprio Anthrax, têm oportunidades de mostrá-los apenas para o público europeu e sul-americano, que são lugares onde o público ainda existe, e de uma forma novamente crescente, diferente da década passada. Se para estas bandas, que fazem um Metal mais ‘convencional’ as coisas já são difíceis, imagina se você tiver uma banda de Black Metal morando no meio do estado do Texas! Este é o caso do Averse Sefira que, mesmo sendo um nome totalmente desconhecido em sua terra natal, vem criando uma verdadeira legião de fãs pela América Latina e também no Velho Continente. No ano passado, em turnê pelo Brasil com o Dark Funeral, a banda chegou ao país com status de ‘gigante do Black’, o que rendeu aos fãs tupiniquins a homenagem no relançamento do álbum Homecoming’s March, que teve a segunda edição dedicada aos brasileiros, em seu encarte. Roadie Crew: O Averse Sefira é uma banda que tem ótima relação com os fãs brasileiros, que aumentou ainda mais após a turnê que vocês fizeram por aqui com o Dark Funeral. Após esta turnê, vocês relançaram o álbum Homecoming’s March, e dedicaram a edição aos fãs brasileiros. Como foi a turnê por aqui? Wrath: Esta foi, com certeza, uma das melhores experiências de turnês que já tivemos. O Brasil sempre nos apoiou muito, e as coisas ficaram ainda melhores. O público por aí nos tratou como ‘rockstars’, o que não era nossa intenção, mas nos surpreendeu! Não estamos acostumados s fazer sessões de autógrafos ou estar rodeados de fãs! Em Belo Horizonte eu quase fui tirado do palco pelos cabelos, e em São Paulo, algumas pessoas nos reconheciam nas ruas! Todos nos trataram muito bem por ai, e foi algo único e inesquecível, além de nossos shows terem sido algumas de nossas melhores performances até hoje! Nunca havíamos tocado para um público daquele tamanho, e nos divertimos muito com as boas bandas de abertura e o Dark Funeral na estrada. É muito difícil descrever o que sentimos nesta turnê brasileira, e é por isso que dedicamos o relançamento de Homecoming’s March aos fãs daí. Consideramos muito a comunidade do Metal no Brasil e estamos muito orgulhosos de termos sido abraçados por ela. Roadie Crew: Logo após a passagem pelo Brasil vocês embarcaram em uma turnê européia. Como foram estes shows se comparados aos do Brasil? Wrath: Esta turnê foi um evento relativamente grande, pois fizemos 12 shows em oito países diferentes! O tamanho do público nem chegou perto ao dos shows brasileiros, mas isto foi apropriado à natureza underground desta turnê. Fizemos shows com o Secrets Of The Moon e o Watain, e ambas as bandas são muito boas. Gostaria de indicá-las a todo fã de Black Metal oculto, pois estas bandas realmente mandam bem. A principal diferença entre o público europeu e o brasileiro é que aí vocês são muito mais participativos e gostam de serem apenas fãs da música. Na Europa todo mundo sente a necessidade de ser importante, e querem ter fanzines, bandas e tudo mais. O problema disso é que todos acabam comportando-se de uma forma desinteressada com o que os outros fazem, o que é meio frustrante. Eu gosto de muitos lugares como a França, a Suécia e os países do leste, mas o Brasil destrói todos eles em termos de qualidade de público e fãs. Roadie Crew: Vocês são uma banda de Black Metal que vem do Texas (EUA). Existe alguma cena para este estilo em seu país? Wrath: Aqui nos Estados Unidos a coisa é bem patética. Nós não gostamos de discutir a cena americana porque ela é tão pequena que nem vale à pena. A maioria das bandas é ruim e não há apoio, além do que ninguém vai aos shows. O Metal deveria parar de existir por aqui. Nós temos muitos fãs na Europa e na América do Sul porque nesses lugares o Metal é realmente importante para as pessoas. Nós ignoramos durante muito tempo algo que estava bem diante de nossos olhos, que é o fato das pessoas na cena daqui serem invejosas e gananciosas. São poucos os americanos que se importam com a arte, e não com a popularidade e o dinheiro. Roadie Crew: Qual o significado de Averse Sefira? Wrath: O nome fala pro si próprio! Nós já tivemos tantas discussões sobre isto que o nome passou a perder seu significado. É melhor que os curiosos descubram sozinhos, pois a verdade está por aí afora! Roadie Crew: Homecoming’s March foi relançado no mundo todo pela Evil Horde. Quais são as principais diferenças desta e da primeira edição? Wrath: O relançamento foi remasterizado para ficar com um som melhor, e também vem em um ‘slipcase’ com um desenho do Jonzig, que é uma edição limitada. Nós também separamos as músicas de suas introduções, tornando-as faixas separadas, o que causou muita confusão. Para aqueles que não entenderam, as faixas com vocais, guitarras e baixo são aquelas que têm nome! O melhor de tudo é que a primeira edição era limitada a mil cópias e, graças à Evil Hord agora é mais fácil de ser achada. Roadie Crew: O Averse Sefira toca um estilo bem tradicional de Black Metal. Como este é um estilo que vem crescendo muito nos últimos anos, ele vem sendo rotulado em diferentes vertentes, como Sinfônico, Atmosférico e etc. O que vocês acham disto? Wrath: Nós gostamos de tudo que soa bem, mesmo eu não estando tão interessado em elementos mais Góticos que algumas bandas vêm utilizando, pois gosto de um som mais cruel. Algumas bandas que usam teclados são decentes, mas nem todas. Não gosto de bandas que tentam parecer o Motörhead ou o Venom também, mas isto depende da banda. Dentro de cada estilo existem exemplos ótimos e péssimos. Em nosso caso, somos apenas Black Metal. Roadie Crew: O novo álbum do Averse Sefira será lançado ainda este ano, pela Evil Horde. O que você pode adiantar sobre ele? Wrath: O álbum ainda é algo que estamos guardando para nós mesmos. O máximo que posso dizer é que a Evil Horde realmente o lançará, e isto deverá acontecer em julho ou agosto. Nós optamos pela Evil Horde pois o Agathodemon dirige a empresa muito bem e sempre foi legal conosco na época do relançamento de Homecoming’s March. Nós queríamos um selo que não pensasse somente em dinheiro, mas sim em nosso trabalho, e a Evil Horde foi a resposta para isso. Nós não nos importamos em querer ser uma grande banda da Nuclear Blast, por exemplo, pois nossa música é apenas nossa, e não queremos ela transformada em apenas mais um produto para as pessoas comprarem. Com a Evil Horde os fãs do Brasil e da América do Sul também conseguem comprar o álbum com maior facilidade e isto é algo bom para nós. O que posso falar do álbum é que ele será uma continuação de Battle’s Clarion, mas com elementos ainda mais caóticos e agressivos. Ele também será produzido em um estúdio diferente, e esperamos que ele ultrapasse tudo que já fizemos até hoje. Wrath: Estas bandas não são Black Metal e isto já faz tempo. Acho que é um erro as pessoas verem estes nomes como algo além de simplesmente Heavy Metal. Mas acho que o pior de tudo é que estas bandas atraem para o Black Metal pessoas que não entendem o que ele realmente é. Mas é verdade que estas bandas ainda representam a vanguarda do estilo. Isto é uma vergonha. Roadie Crew: Como você analisa fatos recentes da cena Black Metal, como e o fim do Immortal? No caso do Immortal, este é um tópico muito difícil para ser discutido por nós como uma banda. Não é segredo que os primeiros trabalhos do Immortal foram de grande influência para nós, mas a fase pós Demonaz da banda é incrivelmente questionável. Acho que a banda deveria ter parado após At The Heart Of Winter mas, sendo justo, devemos considerar que o Abbath foi esperto o suficiente para ver que a banda deveria acabar agora, ao invés de destruir seu legado. O Immortal foi uma banda que nos ensinou a fazer este tipo de música mas, ao mesmo tempo, também nos ensinou o que deveríamos evitar fazer. Digo isto falando novamente sobre nossos princípios em estar trabalhando com um selo como a Evil Horde. Nós não queremos assinar com um selo que transforme nossa arte em emprego, e ficar em uma posição em que estaremos vendo a qualidade de nossos álbuns cair e, mesmo assim, ter que ser obrigado a continuar a carreira. O Immortal nos mostrou muito bem o resultado de uma situação dessas, e posso dizer que não é algo triunfante. Roadie Crew: Recentemente o Gorgoroth fez um show na Polônia que acabou virando notícia no mundo inteiro, onde a banda foi acusada de blasfêmia e coisas do gênero. Qual sua opinião sobre este ocorrido? Wrath: Tenho certeza que o Gorgoroth ficou feliz com o que fez, a não ser, é claro, se eles fossem parar na cadeia na Polônia. É sempre bom relembrar os velhos tempos de quando o Black Metal causava problemas e irritava as pessoas. É claro que não é a mesma coisa que queimar uma igreja, mas ainda assim é válido. Nós gostaríamos de fazer uma produção de palco boa como esta, mas com temas diferentes. Espero que o Gorgoroth consiga não ser preso, mas é difícil dizer se o DVD deste show será lançado. Espero que sim, pois quero muito vê-lo! Roadie Crew: Muitas das bandas de Black Metal de hoje em dia se dizem influenciadas por nomes como o W.A.S.P. e Mötley Crüe. O que você acha disto? Wrath: Eu penso na natureza insular do Black Metal europeu de antigamente, quando todas as bandas insistiam que eram influenciadas por nomes como Bathory, Sodom, Destruction, Possessed, Celtic Frost, e etc. A diferença é que bandas como o Mötley Crüe são apenas entretenimento, e não arte, então devemos questionar as motivações de bandas que dizem ser influenciadas por eles. Hoje em dia parece que muitas pessoas estão ansiosas em querer mostrar que o Black Metal é apenas mais um estilo dentro do Metal, como qualquer outro, o que eu acho que é um erro. O Black Metal, em sua essência, era uma rejeição de outras formas do Metal tanto quanto uma rejeição ao resto do mundo. De qualquer maneira, posso assegurar-lhe que não fomos influenciados por nenhum tipo convencional de Rock. Roadie Crew: Há muitas bandas de Black Metal que julgam as outras como sendo verdadeiras ou falsas. Qual a posição do Averse Sefira sobre isto? Wrath: Nós não nos importamos com este tipo de coisa, e enquanto outras bandas ficam sentadas discutindo para ver quem é ‘true’, nós ocupamos nosso tempo tocando pelo mundo. Algumas pessoas dizem que somos líderes deste movimento, e outras dizem que nós somos uma farsa. Acho que qualquer pessoa que conhece e presta atenção em nosso trabalho sabe que somos muito sérios no que fazemos. As bandas que se preocupam com coisas tão indefinidas como esta não estão fazendo nada de produtivo. De qualquer maneira, as bandas que não gostam de nós parecem ser as mesmas bandas que não gostamos de jeito nenhum. |