Nesta exclusiva, Wrath (b/v) nos conta os detalhes do novo álbum do Averse Sefira, os motivos pelos quais foram cancelados os shows no Brasil ao lado do Dissection e declara sua apreciação pelo público brasileiro Por Vincius Mariano

Quem conferiu a primeira apresentação do Dark Funeral no Brasil em setembro de 2003, teve uma surpresa ao se deparar com um nome não muito conhecido, mas que, no entanto, roubou um pouco a cena. Desconhecido da maioria dos pouco mais de 2 mil presentes, a banda americana Averse Sefira subiu ao palco e simplesmente enlouqueceu o público com sua sonoridade brusca e áspera. De fato, nem os próprios integrantes da banda acreditaram na recepção que tiveram. Meses atrás, muita expectativa se criou quando o grupo foi anunciado como a banda de abertura dos shows do Dissection no país. Porém, devido a uma série de problemas, devidamente explicados nessa entrevista, o grupo foi obrigado a cancelar essa segunda passagem pelo país, embora tenha prometido shows por aqui em março de 2006. Com o cancelamento dos shows, perdemos a chance de bater um papo pessoalmente com a banda, mas isso não nos impediu de entramos novamente em contato com o baixista e vocalista Wrath para saber o que de fato originou o cancelamento das turnês, aproveitando também para falar um pouco mais sobre o novo álbum, o poderoso Tetragrammatical Astygmata, que vem para solidificar de vez a carreira da banda. E claro, não deixamos de falar sobre as impressões do grupo quanto ao público brasileiro, do qual declararam toda a sua apreciação.

Vocês cancelaram os shows que fariam com o Dissection no Brasil. O que, de fato, aconteceu?

O que aconteceu, em resumo, foi que tivemos azar e uma série de problemas que não puderam ser contornados. Fizemos de tudo para que os shows pudessem ser realizados junto a Evil Horde e a Tumba Records, mas, mesmo assim, as datas tiveram que ser canceladas. Resolveram trazer todas as bandas do mundo para o Brasil ao mesmo tempo e nossa turnê teria que competir diretamente com Judas Priest e Morbid Angel, então decidimos que seria melhor para todos os envolvidos se esperássemos para voltar numa data mais apropriada.

Essa data será em março de 2006, certo?Sim, a turnê está marcada para março. Porém, só saberemos as datas exatas e as outras bandas envolvidas por volta de dezembro.

Vocês tocaram no Brasil em 2003 abrindo os shows do Dark Funeral. Como foi essa primeira experiência no país?

Fantástica! Já foi difícil de acreditar que estaríamos em uma turnê com o Dark Funeral, considerando que ainda me lembro quando eu e Sanguine nem tínhamos formado o Averse Sefira, em 1995, e tocávamos o primeiro EP deles em nosso programa de rádio. Eles foram muito legais conosco, nos divertimos muito na companhia deles. A impressão que tive do Brasil e dos brasileiros é que são pessoas muito simpáticas e entusiasmadas. Nunca tive cercado de tantas pessoas gentis e amigáveis ao mesmo tempo.

Estive neste show e percebi que vocês ficaram espantados com a recepção do público brasileiro...

Sabíamos que teríamos uma boa recepção no Brasil devido ao grande número de e-mails que recebemos, mas não estávamos preparados para essa enorme quantidade de fãs, e menos ainda para a reação deles. As pessoas nos fizeram sentir importantes e apreciados. Quase fui puxado pra fora do palco nos dois shows! Algumas pessoas tentaram arrancar umas mechas do meu cabelo, pediam nossas palhetas, as roupas que vestíamos, qualquer coisa! Quase fomos esmagados pela multidão de Belo Horizonte e São Paulo. Definitivamente nunca tínhamos vivido algo assim antes. Muitos já conheciam nossa banda e nosso trabalho, mas também conseguimos conquistar vários novos fãs.

Vocês realmente têm uma grande afinidade pelo público brasileiro, tanto que disponibilizaram uma versão em português do site oficial da banda. O público brasileiro é um dos mais importantes para o Averse Sefira?

Com certeza! Recebemos muita força do Brasil (incluindo a gravadora) e quisemos ter certeza que todos aí pudessem acompanhar nossa trajetória sem dificuldades. Na verdade, planejamos usar outros idiomas também, como o francês, por exemplo, mas o português era obviamente nossa prioridade máxima.

O novo álbum foi lançado pela Evil Horde, um dos melhores selos brasileiros especializados em black metal. Que fator foi fundamental para que vocês assinassem com eles?

A Evil Horde havia entrado em contato conosco anteriormente porque eles queriam permissão para relançar nosso primeiro álbum, Homecoming’s March. Fizeram um bom trabalho e sentimos que eles nos respeitavam, e naquela altura nosso número de fãs na América do Sul estava crescendo, então decidimos que assinar com eles seria a coisa certa a ser feita.

Por que vocês demoraram quatro anos para lançar um novo álbum?

Grande parte dessa demora se deve ao fato de termos passado um longo período em turnê, entre 2001 e 2003. Dedicar todo esse tempo aos shows nos impede de compor coisas novas. Mas acho que foi bom, porque nos deu tempo de refletir e nos fortalecer como banda. Além disso, com a gente não rola de aparecer uma idéia de música a menos que ela queira aparecer. Pode soar estranho, mas há muitos elementos na banda que estão além do nosso controle direto. Fazemos a nossa parte e esperamos pelos outros elementos aparecerem por si próprios.

Tetragrammatical Astygmata é o terceiro álbum de estúdio da banda. Há algum significado por trás desse título um tanto quanto enigmático?

Tetragrammaton – outro nome para o deus cristão. Gramática – a estrutura da fala. Astigmatismo – a condição ocular que atrapalha a visão. Stigmata – a marca da desgraça, conhecida pelas feridas da crucificação. É um código da nossa própria criação; a cegueira da fé em Deus e seu inefável fracasso.

O novo álbum apresenta um nível de extremidade muito grande, talvez o maior alcançado pela banda. Esse é o nível que vocês gostariam de alcançar desde o começo?

Ele traz uma experiência sonora mais envolvente e poderosa que nossos trabalhos anteriores. Sem falar que é também mais importante que eles. Qualquer banda com algo a oferecer tende a melhorar com o tempo. Fazer turnês fez com que nos fortalecêssemos como grupo, e dessa vez também tivemos um excelente produtor. Tore Stierna sabe como produzir uma banda extrema e com a direção dele tivemos a oportunidade de fazer algo grande, como desejávamos. O Tetragrammatical Astygmata é exatamente o que queremos que as pessoas ouçam do nosso trabalho.

O Averse Sefira está no polêmico documentário Dark Planet: Visions Of América. O que exatamente é abordado nesse DVD?

O documentário é sobre sub-culturas musicais na América, principalmente as que envolvem a heresia social. O cara responsável é envolvido na cena hardcore e já havia feito um filme sobre o estilo. Da nossa parte, foi uma boa oportunidade de discutir o porquê de sermos uma banda e o que nós pensamos sobre a América nos dias de hoje (nada de bom foi dito, a propósito). Não é sobre black metal, essa é apenas uma parte dele. De fato, aceitei participar exatamente por essa razão. É importante mostrar o significado desse tipo de música para o resto do mundo. De outro modo, estaríamos apenas repetindo os fatos para nós mesmos, sem aprender nada de novo. Isso não significa que nos importamos ou gostamos do resto do mundo, mas ele é um lugar muito grande, com quase 7 bilhões de pessoas, então é bom que possamos entender qual nosso papel em meio a tudo isso.

Vocês sentem falta da época em que o estilo era mais sério e intimidador, sem o marketing dos dias de hoje?

Não vejo nenhuma diferença nisso, já que as bandas que mais aparecem não são na verdade as que realmente importam. Seria melhor se menos gente estivesse envolvida na cena, como há dez anos atrás? Sim, mas não é o que acontece hoje em dia, então não há porque se preocupar. Isso me perturba tanto quanto o sol que nasce todas as manhãs. Me parece que hoje o que manda no estilo são as motivações e idéias e não apenas a música por si só.

Independente de grupos considerados comerciais ou não, você acredita que o black metal vive um bom momento ou são poucas as bandas que realmente você destacaria na cena?

Depende do quanto você está envolvido e também daquilo que você considera como “bom”. Tenho sorte de ser amigo da maioria das bandas que ouço hoje em dia, então não tenho muito trabalho em achar coisas boas para ouvir. O maior problema é que existem dois tipos de pessoas nocivas para o black metal: aqueles que acham que podem ser qualquer coisa e não seguem nenhum princípio, e aqueles que acham que só podem ser uma coisa e crêem que inovar é algo ruim. Ambas idéias são erradas e, como sempre, a resposta está entre uma e outra. Se alguém acha que não há nada mais que preste, sugiro que dê mais uma olhada. A música não vai morrer sem lutar.

Você não dá muita importância quanto às vendagens do Averse Sefira, procurando apenas fazer um trabalho extremo e de acordo com a sua linha de pensamento. Sendo assim, qual é o objetivo principal da banda?

O Averse Sefira foi criado como uma espécie de monumento a esse estilo de arte e para nós mesmos. Não somos nem um pouco motivados pelo dinheiro. Claro, precisamos pagar as passagens quando viajamos pelo mundo, mas posso dizer que não voltamos pra casa com os bolsos cheios ao final das turnês. Nosso objetivo é poder fazer música e continuar conquistando um público. Não sonhamos em nos tornar ricos com o que fazemos. O fato de nosso sucesso estar durando por quase dez anos superou todas minhas expectativas. Acho que nossos objetivos agora irão persistir. Vamos tocar em todas as partes possíveis do mundo e ir gravando mais álbuns ao longo desse processo. Se há um objetivo que busco, acima de qualquer outro, é o de ser lembrado. Queremos alcançar a imortalidade.